É AQUELE!
Vamos apanhá-lo!!! É aquele!
Os gritos surgiram assim nas suas costas e pensou logo, era inevitável, que seria preso.
Tinha acabado de participar numa distribuição de boletins do MAEESL – Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário de Lisboa, antes do 25 de Abril, contra o regime ditatorial, a Guerra e o ensino retrógrado vigente.
O Reitor do Liceu de Oeiras, conhecido por "dez para as duas” já sabia porque os bufos se tinham, céleres, encarregado de o informar.
Nesse tempo de má memória nas escolas secundárias havia a figura do Reitor com contornos de autoridade discricionária ao sabor dos seus ditames.
Virou-se para trás e quase foi atropelado por três operários da Fundição de Oeiras correndo a apanhar o Comboio que estava a chegar. Respirou de alívio. Afinal não era a PIDE. Aos 16 anos cresceu depressa. Foi para as aulas caladinho e adorou a sensação de herói e a cumplicidade de toda a Turma. Não se falou do assunto, mesmo na aula de Português, cujo professor era já revolucionário mas não se podia expor.
O “E depois do adeus” surgiu sem que nenhum dos participantes da acção tivesse sido denunciado, apesar da constante insistência do Reitor e do Director de Turma a pedir nomes, por delação.
Pensou na mãe. Não lhe vai dizer nada. Até é do contra e achou piada quando ele apanhou 5 reguadas na 4ª Classe por dizer em voz alta que, antes de chegar a idade de ir para a tropa, desertaria para França para não ir à Guerra da Colónias porque não tinha lá nada nosso.
- Se não defendemos o Ultramar ainda temos os terroristas cá em nossa casa! Arrotou o professor, que propagava a mobilização mas para os filhos dos pobres, quando a mandou chamar para que lhe desse mais outro correctivo, além de que…
-É para bem dele! A Guerra é de todos! A mãe ouvia e calava e abanava a cabeça que sim. Dizer o quê? Eles é que mandam.
Nessa altura havia separação por sexos: as alunas tinham aulas de manhã e os rapazes de tarde, em nome da falsa moral para evitar o contacto que levaria a uma pretensa devassidão dos costumes. Muitos trocavam bilhetes de recados com papéis escritos e postos debaixo dos tampos da carteira. Eram assim combinados encontros de contornos secretos a desafiar a absurda separação.
Bem planeada a acção! Combinada dias antes num aterro perto do Liceu, em reunião clandestina, onde participava pela primeira vez. Estava cheio de medo mas disposto a participar.
Partilhava já LPs do Sérgio Godinho e do Zé Mário Branco. As letras de Camões a aderir a uma renascença fervilhante cabiam na perfeição nestes tempos em que se impunham transformações e ruptura com um Mundo caduco.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
”Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.”
Partiram da Estação de Comboios de Oeiras, à hora do almoço, em direcção ao Liceu. Apanhavam as raparigas que saíam e distribuíam também aos rapazes que iam para as aulas da tarde. Se algo corresse mal, atiravam-se os comunicados ao ar – assim tinha sido combinado - e misturavam-se com os restantes alunos. Alguns, poucos não aceitavam mas alguém apanhava os boletins que caíam como de um troféu raro se tratasse.
Foi um sucesso! Distribuíram-se os boletins todos e o espanto grassou em muitos colegas de Turma e de Ano que não os julgavam naquelas andanças contra a Ditadura. O “calça justa”, denominação com que os da sua Turma protegiam a sua célebre frase da luta por uma CAUSA JUSTA, teve de sair da circulação por algum tempo e a família de lhe anular novamente a matrícula para que não fosse direitinho ao Forte de Caxias ou forçado à tropa.
Foi assim, pouco antes do 25 de Abril, que se fez a primeira acção de rua contra o regime no Liceu de Oeiras, como muitas por esse país fora a alvorar a Liberdade.
Apr 24
5:15 PM