Manuel Luís Feliciano nasceu em Vilar de Barrô – concelho de Resende, a 20 de Dezembro de 1975. Licenciou-se na Faculdade de Ciencias Sociais e Humanas da Universidde Nova de Lisboa, na qual concluiu o curso de Línguas e Literaturas Modernas – Variante Estudos Portugueses e Franceses a 3 de Novembro de 2005. Começou a publicar os primeiros poemas no Jornal Voz De Lamego na coluna de poesia, mais tarde publicou em revistas peruanas como El Parnaso de Apolo e Olandina. Consta de sua autoria “Pedaços de Gente em Mim”, “Palavras em Guerra”, “Uma Flor ao luar”.
Atravessou o fogo Ao cântico das balas Por cima de estilhaços Oferendou os pés Corroeu alvéolos Em bocas sem verdade Nas artérias da ira Coagulou o sangue Sobre as ferragens do ódio Invertebrou os homens Que morreram Sem estatística nem história E numa mesa pequena sentou-se Quase ninguém a esperava Desmantelou a chuva estéril das balas Que choviam sobre os pratos Não cumprimentou heróis de guerra Acendeu a vela na escuridão das bocas Fez-se mel a escorrer pelo barro das gargantas!
CONFIE SEMPRE
Não percas a tua fé entre as sombras do mundo. Ainda Que Os Teus pés estejam sangrando, segue para a frente, erguendo-a por luz celeste, acima De ti mesmo. Crê e trabalha. Esforça-te no bem e espera Com paciência. Tudo passa e tudo se renova na terra, mas o que vem do céu permanecerá. De todos os infelizes os mais desditosos são os que perderam a confiança Em Deus e em si mesmo, porque o maior infortúnio é sofrer a privação Da fé e prosseguir vivendo. Eleva, pois, o teu olhar e caminha. Luta e serve. Aprende e adianta-te. Brilha a alvorada além da noite. Hoje, é possível que a tempestade te amarfanhe o coração e te atormente o ideal, aguilhoando-te com a aflição ou ameaçando-te com a morte. Não te esqueças, porém, de que amanhã será outro dia.
Chico Xavier
Largo o meu corpo pelas ruas Como uma vela içada ao vento Como um avião a tocar as nuvens E fujo do conforto das lojas que se aproximam E cuspo propagandas metálicas Que publicitários prometeram regurgitar mortos Por entre linhas imaginárias Casuais, mas que toco O sol, as nuvens, e as estrelas Não existem E a terra não é um elemento concreto Eu mesmo um espectro de vento Por isso às vezes caminho no céu E há terra dura nos pés que não suportam enxadas E glaciares nos meus olhos que impedem pescadores Que o sol não resgata Uivos de lobo na minha pele Há nuvens que choram gritos de dor sobre a estrada E flores avermelhadas que insistem Como uma boca que chama De um horizonte fora de todos os outros De um sol inexistente que brilha.
És a casa cheia de sol A escorrer Nos ninhos sobre os beirais O refugio das dores As flores sobre o altar Onde medito teu nome de Rosa Como se um Deus se abra em teu leito Para te celebrar És a origem da terra Só há terra porque és mãe Sem ti a montanha não se erigia aos céus E os oceanos morrer-te-iam no colo Porque tu és todas as coisas enlaçadas Coisas que só existem porque tu és Parte de mim Origem de todas as coisas.
Sentemo-nos nos calhaus da tristeza Sem folhas secas nos olhos E espigas cortadas nos dedos Beijemos a ferida como se fosse a rosa Que os nossos sentimentos pastem Como cordeiros fora de nós mesmos Quando nas ruas de Jerusalém o sol desmaie Olhemos para trás sem o depois Descabelando nossas mãos ao sol Sem pontos de interrogação desfigurando Faces de homens visivelmente alegres Que um rio de pedra ainda verta água Nas vértebras do silêncio que nos deram Que a pedra seja carne correndo na fonte Que o ópio alimente barcos vergados de carga E se primaveras morrerem em nossas pálpebras Pensemos sem dor que somos de algum berço.
“Ao que devo, sim, o mais dos frutos do meu trabalho, a relativa exabundância de sua fertilidade, a parte produtiva e durável da sua safra, é às minhas madrugadas. Menino ainda, assim que entrei ao colégio, alvidrei eu mesmo a conveniência desse costume, e daí avante o observei, sem cessar, toda a vida. Eduquei nele o meu cérebro, a ponto de espertar exatamente à hora, que comigo mesmo assentava ao dormir. Sucedia, muito amiúde, encetar eu a minha solitária banca de estudo à uma ou duas da antemanhã. Muitas vezes me mandava logo após, àquelas amadas lucubrações, as e que me lembro com saudade mais deleitosa e estranhável.
Tenho, ainda hoje, convicção de que nessa observância persistente está o segredo feliz, não só das minhas primeiras vitórias no trabalho, mas de quantas vantagens alcancei jamais levar aos meus concorrentes, em todo o andar dos anos, até a velhice. Muito há que já não subtraio tanto às horas da cama, para acrescentar às do estudo. Mas o sistema ainda perdura, bem que largamente cerceado nas antigas imoderações. Até agora, nunca o sol deu comigo deitado, e, ainda hoje, um dos meus raros e modestos desvanecimentos é o de ser grande madrugador, madrugador impenitente.
Mas, senhores, os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas principalmente, nas idéias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas”.
Há homens feitos de livros e filosofias, e se eu lhes tirasse os livros e as filosofias, o que lhes restaria? Eu quero conhecer homens auto-suficientes, auto-conhecedores, auto-inteligentes, homens de inteligência sensorial, há alguém por aqui? Eu quero a essência de homens despidos de páginas de livros!!!! Homens naturais, livres, com amor-próprio, linguagem em si mesmos, não homens acorrentados!!!! E pobres dentro da alma!!!! tenho medo que as vossas cidades sejam de papel!!!
Eu convido a humanidade a olhar para dentro de si, e dizer frases não feitas, porque senão elas vão cair no pecado de alguém as já ter dito, mas também não sejais falsos, dizei-as somente se as sentirdes, cada coisa só pode ter valor se for singular, pois é daí que nasce a beleza, e acreditai, ninguém nasce anjo, poeta, médium, carpinteiro, eu dormi debaixo das pontes com os mendigos, é por isso que escrevo poesia, outros são profetas porque leram uns senhores que estão na moda!!!! Por isso meus queridos duvidai, porque tem que se sentir a mão do vento arredar a dor!!!! E não palavras baratas tiradas de charlatães!!!
Todos aqueles que omitem a essência que os habita em prol do seu proveito pessoal e não são capazes de baixar-se ao mais elementar de que são feitos, só por questões meramente sociológicas e excêntricas do seu ego, tal como a vaidade, arrogância, poder, superioridade, não chegam a ter a serventia de uma folha amarela caída no chão perante a humanidade!!! Denomino-os por homens grutas, sem palavra própria, que não existem sem o mundo das aparências! Sendo que viver é meramente aparente, ser é uma outra coisa, é estar completamente habitado sem corpo! Deus existe-me eu não preciso de falsos profetas, que falam na luz e nunca a viram, porque para ver a luz é preciso comer muito antes a cicatriz do tempo, comer a dor e cuspi-la fora, e só Deus conhece o antes e o depois de ti mesmo,ele é a única verdade e ninguém fala por ele, por isso não o substituas, eu não adoro homens de barro! Eu não preciso dos neo-profetas e trouxe comigo a minha poesia para desconstruir a guerra!!!! Eu abomino a escatologia pintada de branco.
...como eu te entendo ... mas já não é revolta o que sinto;essa apanhou-me na adolescência e tornou-me o caminho mais insinuoso.
sabes poeta,que,eu,filha de pais portugueses,vejo-me remetida com eles a um país-planeta-estranho-de-que-nunca-me-tinham-falado aos 3 anos(tinhas tu menos uma semana :)),num mês de Dezembro com neve ...a «Conservatória do Registo Civil» tornou-se memorável para mim,vou contar-te em sumário: tinham estátuas gigantescas de 2 juízes muito importantes na entrada.eram e ainda são de bronze.hoje são muito mais pequenas ,mas assustam-me à mesma.representam desde a origem a justiça portuguesa para mim,não há volta a dar. ha,mas essas idas à Conservatória eram para a legalização dos filhos um menino e uma menina(eu) nascidos em áfrica.o meu irmão em Angola eu em áfrica do Sul.era tudo muito cinzento e eu,ainda nem tinha lido Kafka!adiantando... a minha humilde mãe foi dias e dias seguidos àquele lugar,comigo pela mão.eu chorava de medo...era tudo frio,sem cores.e mais uma vez estávamos em frente a uma mulher velha,sentada num cadeirão.mais tarde soube que a profissão dela era «notária».para mim,era uma mulher má que insultava a minha mãe ,à minha frente e com a porta fechada. adiantando... insultou a minha mãe até à raíz.há coisas de que ainda me lembro:«foi na terra dos negros que casou?é lá que tem que ir buscar as cretidões.»«não tem vergonha de não ter certidões dos seus filhos?» «serão seus?»muitas outras coisas que ficaram na sombra esquecida da minha memória. adiantando... soube mais tarde,por virtude de se lamentar com pessoas amigas da sua aldeia,que essas mesmas pessoas:família Sá Morais,eram amigos da mulher má! a Dona Maria Ângela escreveu uma cartinha (branca) que deu à minha mãe. no dia seguinte,fomos a Bragança ,a senhora má e cinzenta recebeu a cartinha que a minha humilde mãe disse ser da Dona Maria Ângela. «...já há muito que a não vejo!...ah...olhe assine aqui e venha cá para a semana...vá...» ...bem...e foi mais ou menos assim,que eu passei a ter nacionalidade portuguesa,eu e o meu irmão. na semana seguinte estavam lá as nossas cédulas.pronto.
sinto que é claramente a hora de passarmos das mãos arregaçadas á obra! se conseguirmos uma corrente conseguimos força e mudança...vamos lá?
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